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BIBLIOTECA PÚBLICA DE ARARI: MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E UM APELO PELA RECONSTRUÇÃO DO SABER

  • Foto do escritor: Adenildo Bezerra
    Adenildo Bezerra
  • 28 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Em 1934, graças à iniciativa e à sensibilidade intelectual de José Moreira, Abdomacir Santos e Jorge Oliveira, Arari deu um passo decisivo em direção ao conhecimento e à formação cultural com a fundação de sua primeira biblioteca, o Gabinete de Leitura José Moreira. Mais do que um espaço físico, aquele gabinete representava um projeto de futuro, um gesto de confiança na educação, na leitura e no poder transformador dos livros.

A biblioteca funcionava no Colégio Gomes de Souza, também fundado por José Moreira, que acumulava as funções de idealizador, diretor e único professor da instituição. José Moreira não era arariense de nascimento. Chegou à cidade no início da década de 1930 para assumir a direção dos Correios e Telégrafos. Era um homem de múltiplos interesses culturais: amante da leitura, da escrita e da fotografia. Trouxe consigo não apenas livros, mas uma visão de mundo que compreendia o saber como instrumento de emancipação.

Abdomacir Santos, por sua vez, era profundamente articulado na sociedade arariense. Estudioso, leitor assíduo e respeitado por sua capacidade de diálogo, foi peça fundamental para mobilizar apoio e dar sustentação social à iniciativa. Já Jorge Oliveira, enfermeiro dedicado ao cuidado curativo e preventivo da população, exercia na prática o papel de médico da época. Também ele nutria profundo apreço pelos livros e pelo conhecimento, compreendendo que a saúde de um povo não se limita ao corpo, mas envolve igualmente a mente e o espírito.

Unidos por esse ideal comum, os três pioneiros lançaram as bases da primeira experiência bibliotecária de Arari. Anos mais tarde, o Gabinete de Leitura foi transformado em biblioteca pública municipal, recebendo o nome de Biblioteca Municipal Justina Fernandes, em homenagem à primeira mulher eleita prefeita do município, cuja gestão ficou marcada por seriedade e compromisso com o bem público. Em 1998, após o falecimento do Padre Clodomir Brandt e Silva, a biblioteca passou a se chamar Biblioteca Municipal Padre Brandt, reconhecendo a relevância histórica e social de sua atuação em Arari.

Durante certo período, a biblioteca funcionou em prédio próprio, anexo ao Centro Cultural Zezeca Perone. Com a extinção do centro cultural e a instalação da Escola Municipal Raimunda Marques no local, a biblioteca passou a ocupar prédios alugados, entrando em um processo gradual de abandono, marcado pela falta de investimentos, de políticas públicas e de atenção da municipalidade. Em determinado momento, foi simplesmente extinta, sem que se conheçam, com clareza, os motivos que levaram a esse desfecho.

É importante registrar que o acervo da biblioteca pública de Arari era vasto, diversificado e de grande valor cultural. Sua perda representa um empobrecimento coletivo. Apesar de vivermos em tempos digitais, manter uma biblioteca em funcionamento continua sendo um gesto civilizatório. Folhear um livro, sentir o papel, marcar páginas, dialogar silenciosamente com o texto, nada disso pode ser plenamente substituído por telas. A biblioteca é espaço de encontro, de memória, de formação cidadã e de democratização do saber.

Infelizmente, o descaso com a leitura marca outros episódios da história arariense. A biblioteca do SESI, conquistada com grande esforço por José Fernandes, hoje in memoriam, também foi destruída. O Farol do Saber ainda resiste, talvez justamente por ser uma iniciativa do Governo do Estado do Maranhão, o que evidencia como políticas institucionais consistentes fazem diferença.

Diante desse histórico, torna-se urgente e necessário um apelo pela reativação da biblioteca pública municipal de Arari, preferencialmente em prédio próprio, digno de sua importância simbólica e social. Quanto à denominação, há nomes que merecem justa consideração, como José Fernandes, Silvestre Fernandes ou o próprio José Moreira, pioneiro que, ainda em 1934, acreditou que Arari precisava de livros para crescer. Nada há contra o Padre Brandt, cuja importância para a cidade é inegável e já amplamente reconhecida por diversas homenagens. Trata-se, antes, de resgatar a memória daqueles que plantaram as primeiras sementes da leitura em nosso município.

Reativar a biblioteca municipal não é apenas recuperar um espaço perdido. É reafirmar o compromisso de Arari com a educação, com a cultura e com o futuro de seu povo. É dizer, de forma clara e concreta, que o conhecimento continua sendo um direito e uma prioridade.

 

 
 
 

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